Monitorização dos processos costeiros: resposta possível num cenário de incerteza e base para soluções inovadoras de defesa[i]

Um dos maiores desafios que se coloca à gestão e planeamento das zonas costeiras resulta da enorme incerteza na previsão dos impactos das alterações climáticas sobre os processos morfodinâmicos. Voudouskas et al. (2020) antecipam que, a manterem-se as dinâmicas instaladas combinadas com o recuo simulado da consequência da subida do nível médio do mar, estas poderão conduzir ao desaparecimento de quase metade das praias arenosas mundiais. Este resultado foi, contudo, contestado por um outro conjunto de cientistas (Cooper et al., 2020), que identificam as fragilidades associadas aos modelos utilizados pelos primeiros autores.

Tal discussão, quando vivida durante a crise pandémica, torna inevitável a elaboração de um paralelismo entre a reação e combate à erosão costeira e o combate a um agente viral desconhecido. Neste último, os decisores políticos remeteram para os técnicos a justificação das suas decisões, aguardando por soluções e apoiando a realização de testes como forma de combate imediato. Face a uma vigilância estendida a todo o país, as medidas são tomadas em função das necessidades locais. Aceitaram, sobretudo, a necessidade de desenvolver conhecimento, levando a cabo todos os investimentos necessários. A monitorização é, assim, a abordagem possível enquanto não surgem tratamentos eficazes e seguros.

A monitorização da zona costeira teve com o Programa COSMO da APA um impulso positivo com o registo sistemático e repetido de informação morfológica num conjunto discreto de locais ao longo da costa continental.

Existem dois aspetos fundamentais para que o esforço iniciado seja útil: (i) complementar os trabalhos de medição morfológica com outras observações essenciais para o conhecimento dos processos morfodinâmicos, estendendo-se espacialmente os locais monitorizados (desejavelmente de forma contínua recorrendo a soluções tecnológicas disponíveis atualmente); e (ii) estudo e caracterização de todos os processos morfodinâmicos instalados. Uma descentralização inteligente poderá ser a resposta que permitirá obter os recursos financeiros necessários.

A zona costeira portuguesa constitui um património natural que está longe de se esgotar no uso balnear, devendo suscitar por isso a mobilização de toda a sociedade no sentido de a preservar para gerações futuras. Deve, deste modo, ser alvo de desenvolvimento de conhecimento, através do qual se encontrem soluções inovadoras de defesa. Tratando-se estas, por sua vez, do resultado de monitorização e investigação aprofundadas, serão uma oportunidade de inovação para o país.

Referências

Cooper, A., Masselink, G., Coco, G., Short, A., Castelle, B., Rogers, K., Anthony, E., Green, A., Kelley, J., Pilkey, O., Jackson, D. (2020, March 18). Sandy beaches can survive sea-level rise. https://doi.org/10.31223/osf.io/4md6e

Vousdoukas, M. I., Ranasinghe, R., Mentaschi, L., Plomaritis, T. A., Athanasiou, P., Luijendijk, A., & Feyen, L. (2020). Sandy coastlines under threat of erosion. Nature climate change, 10(3), 260-263. https://doi.org/10.1038/s41558-020-0697-0

 

[i] Texto produzido pela CEZCM – 16/06/2020 – relator: J. L. S. Pinho