DIA MUNDIAL DA MIGRAÇÃO DOS PEIXES:

Caminhada guiada pelo trilho fluvial da Ribeira da Foz (Constância)

Teve lugar no passado dia 21 de maio de 2022, a 5ª edição do Dia Mundial da Migração de Peixes (World  Fish Migration Day; web: http://www.worldfishmigrationday.com/). Trata-se de uma iniciativa a nível mundial, que se realiza em cada dois anos, com o objetivo de chamar a atenção da opinião pública sobre a importância da manutenção de rios saudáveis e da conectividade fluvial, fundamental para a livre circulação de peixes e satisfação das suas necessidades ao longo do ciclo de vida (sobretudo ao nível da reprodução, alimentação e refúgio). Nesta edição, realizaram-se 450 eventos (11 em Portugal) em 75 diferentes países.

Em Constância, decorreu o evento “Caminhada guiada pelo trilho fluvial da Ribeira da Foz (Constância)”, organizado pela Comissão Especializada da Qualidade da Água e dos Ecossistemas (CEQAE) da APRH, ALTRI Florestal, representada por Pedro Serafim, Sociedade Ibérica de Ictiologia (SIBIC) e por investigadores do Centro de Estudos Florestais da ULisboa e Escola Superior Agrária de Santarém, estes últimos representados, respetivamente, por José Maria Santos e João Oliveira. O evento, igualmente enquadrado no âmbito do projeto FCT Dammed Fish, consistiu numa caminhada através de um trilho fluvial localizado na parte jusante da ribeira da Foz, afluente direto da margem esquerda do rio Tejo. Este trilho faz parte da Estação da Biodiversidade (EBIO) da Ribeira da Foz, e está integrado numa propriedade sob gestão da Altri Florestal, constituindo um percurso circular de 2km com 8 painéis de informação sobre a biodiversidade local, com destaque para os peixes, insetos e vegetação ribeirinha.

Após um briefing aos cerca de 30 participantes, sobre o contexto da caminhada e a singularidade do percurso – este acompanha as margens da ribeira, ao longo de uma paisagem caracterizada por uma galeria ribeirinha e um ecossistema aquático muito bem conservado, e onde ainda são visíveis vestígios de antigas estruturas hidráulicas (moinhos de lagar de azeite) que outrora serviram para a sustentabilidade das populações locais – a caminhada iniciou-se pelas 10h30, num misto de ansiedade e boa disposição. O tempo – céu nublado com temperatura amena – a isso convidava, pois felizmente não se verificou o intenso calor previsto para a região nos dias anteriores.

No primeiro painel de informação, foi mostrado o elenco da ictiofauna nativa existente no local e que inclui espécies como a lampreia-marinha, enguia-europeia, ou barbo-comum, além da boga-portuguesa que é um endemismo lusitânico; os participantes aproveitaram também para saber mais acerca das atividades de monitorização da qualidade ecológica a que a ribeira é periodicamente sujeita.

Após uma curta caminhada e breve paragem, os participantes tiveram a oportunidade de apreciar no local do segundo painel os restos de um antigo lagar de azeite (que funcionou entre 1906 e 1936) e de visionar alguns exemplos da flora local, nomeadamente espécies como a gilbardeira, o feto-real, o lódão e os amieiros, omnipresentes em todo este setor do percurso.

Novamente a caminho, e mais uma paragem estratégica, agora no terceiro painel, onde estivemos a discutir a importância das pequenas poças laterais contíguas ao curso principal da ribeira para as populações de anfíbios e répteis (p.e. a salamandra-de-pintas-amarelas ou o lagarto-de-água). Aqui também se chamou a atenção para o impacte das espécies exóticas nos ecossistemas, infelizmente também presentes na ribeira da Foz, incluindo espécies como a perca-sol, o góbio ou o lagostim-vermelho-do-Louisiana.

O caminho até ao quarto painel de informação fez-se uma vez mais através do trilho do bosque ensombrado da ribeira, e em parte por uma antiga levada, onde no final conversámos sobre a importância de algumas espécies de vegetação arbustiva – o pilriteiro e as silvas – para as diferentes espécies de borboletas que o local abriga.

Daqui até ao quinto painel, o caminho foi quase sempre feito em fila indiana através do trilho marcado ao longo da margem. Este foi mais um setor do percurso em que pudemos apreciar a extraordinária riqueza paisagística do local, que mais se assemelha a um troço de um rio do norte de Portugal, do que propriamente a uma ribeira da Estremadura onde nos encontrávamos. Neste ponto, tivemos a oportunidade de falar sobre as espécies de libélulas e libelinhas que se encontram presentes nesta ribeira, nomeadamente no troço de águas represadas pelo açude rústico localizado alguns metros mais adiante.

A chegada ao açude coincidiu com mais um momento de conversa com os participantes, desta vez sobre a dificuldade que estas estruturas hidráulicas – atualmente cerca de 1,200 000 na Europa, das quais 10% se encontram obsoletas – colocam à movimentação da fauna aquática, em particular dos peixes, que na maior das vezes não os conseguem transpor para montante, para procura de locais de reprodução, alimentação ou refúgio. Seguiu-se depois um dos momentos mais esperados: a transposição da ponte suspensa sobre a ribeira, que todos os participantes efetuaram com sucesso.

Já na margem oposta, iniciámos uma subida acentuada até ao estradão de terra batida, onde pudemos contemplar ao longo deste setor o corredor contínuo de vegetação nativa que envolve a ribeira. Após algumas dezenas de metros, foi altura para nova paragem no local do sexto painel, onde se abordou a riqueza de avifauna associada a este setor da ribeira, incluindo espécies como o gavião, o pombo-torcaz, o guarda-rios e o abelharuco, de cuja dieta fazem parte as vespas e o abelhão-terrestre.

De regresso ao trilho, fomos uma vez mais descendo o estradão florestal que nos levou ao sétimo painel onde desta vez tivemos a oportunidade de falar sobre a diversidade de plantas – nomeadamente a aroeira e o terebinto, cujas resinas são usadas desde há muito para diversos fins – e insetos (sobretudo coleópteros) existente no local. 

Mais umas escassas centenas de metros adiante e eis-nos no oitavo (e último) painel, onde o tema de conversa se centrou na diversidade de borboletas existente na ribeira (mais de vinte espécies), cujas contagens mensais nesta estação EBIO serão integradas no plano de monitorização das borboletas europeias.  Foi também dado a conhecer as ações que a ALTRI Florestal está a promover ao nível da regeneração da floresta autóctone na encosta oeste da ribeira, e que inclui espécies como o sobreiro, carvalho-cerquinho e urze-branca.

A chegada ao ponto final da caminhada (e início do percurso) aconteceu por volta das 12h30, onde todos os participantes foram presenteados com um pequeno farnel oferecido pela ALTRI, e onde puderam, à sombra da frondosa vegetação ribeirinha, descansar e repor as energias depois de duas horas de uma excelente caminhada.

 

Website do evento (nacional): https://www.aprh.pt/pt/eventos/organizados-pela-aprh/2022/caminhada-guiada-pelo-trilho-fluvial-da-ribeira-da-foz-constancia

Website do evento (internacional): https://www.worldfishmigrationday.com/event/citizen-science-caminhada-guiada-pelo-trilho-fluvial-da-ribeira-da-foz-constancia/