26-27 JUN
A Gestão Municipal e a Gestão da Água
26 e 27 de junho de 1991
Relato
Relato
Com o apoio dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento do Município de Cascais, decorreu em 26 e 27 de Junho passado, no Hotel Estoril Sol, mais um Encontro Técnico, integrado no Ciclo de realizações preparatórias do “1º Congresso da Água”.
O Encontro, onde estiveram presentes cerca de 100 participantes, teve por finalidade analisar e debater as múltiplas relações existentes entre a gestão municipal e a gestão dos recursos hídricos.
O programa, da responsabilidade de uma comissão organizadora, criada para o efeito é constituída por:
- Eng João Bau (APRH)
- Eng José Manuel Fernandes (SMAS Cascais)
- Dr. Carlos Nascimento (SMAS Cascais)
- Engª Susana Neto (GEPAT)
constou da apresentação de abordagens múltiplas, através de mesas redondas, da qual fizeram parte peritos convidados de reconhecido mérito na matéria, inseridas em cinco temas principais:
- A Actividade dos Municípios no Âmbito do Abastecimento de Água e Saneamento-Balanço Crítico da Actividade Desenvolvida; Perspectivas de Acção Futura.;
- Os Municípios e o Controlo da Poluição Hídrica-Balanço das Experiências Existentes e Identificação dos Principais Bloqueios;
- Os Planos Directores Municipais, os Planos Regionais e os Recursos Hídricos-Perspectivas de Integração da Gestão da Água no Ordenamento do Território;
- Os Municípios, a Água e as Actividades Económicas-Custos e Benefícios; Novos Desafios e Opções de Desenvolvimento Local;
- A Participação dos Municípios na Estrutura de Gestão dos Recursos Hídricos-Qu Atribuições e Competências?
Durante as sessões decorreu uma exposição englobando o tema.
No final do Encontro foram elaboradas as conclusões que passamos a transcrever:
“Conclusões”/Tópicos de Discussão/Ideias, Propostas
Relatora: Enga Susana Neto
TEMA A – A Actividade dos Municípios no Âmbito do Abastecimento de Água e Saneamento.
Balanço Crítico da Actividade Desenvolvida.
Perspectivas de Acção Futura.
- Referidos problemas de índole geral, desde a falta de incentivos aos quadros técnicos, a falta de regulamentação, a escassez de recursos financeiros que ficam aquém da evolução das situações, até às dificuldades de gestão da procura de serviços pelas populações oscilantes das zonas turísticas.
- O recurso sistemático ao crédito (fundos comunitários) tem provocado um endividamento crescente e uma dependência desses apoios.
- As Médias dos indicadores de níveis de satisfação da CEE estão longe de ser atingidas.
- Há soluções e propostas diversificadas, para os problemas organizativos, que vão desde as hipó- teses de privatização, com descentralização de serviços, até a reinserção dos Serviços Municipalizados nas Câmaras; colocam-se a este respeito, questões sociais e económicas acerca da natureza dos serviços a prestar – deverá instituir- -se, ou não, por exemplo, um “preço social da água”?
- O Associativismo intermunicipal pode ser uma solução para a abordagem mais global dos problemas do abastecimento de água e tratamento de águas residuais.
TEMA B Os Municípios e o Controlo da Poluição Hídrica.
Balanço das Experiências Existentes e Identificação dos Principais Bloqueios.
- A experiência de algumas autarquias é razoável no reconhecimento dos problemas de poluição e respectiva caracterização.
- Há necessidade de enquadrar a actualização dos municípios, em termos técnicos e científicos, para responder à complexidade dos problemas que se colocam neste âmbito.
- Os principais bloqueios são de natureza financeira, técnica, organizativa e institucional.
- As formas de intervenção municipal deveriam evoluir para uma maior abrangência e eficiência, no sentido de responder melhor à complexidade crescente dos problemas de poluição da água: isto passará também por incluir a associação entre municípios.
TEMA C Os Planos Directores Municipais, os Planos Regionais e os Recursos Hídricos.
Perspectivas de Integração da Gestão da Água no Ordenamento do Território.
- Necessidade de considerar a bacia hidrográfica como unidade de gestão dos recursos hídricos.
- Proposta: um modelo de gestão dos sistemas de abastecimento e saneamento, com uma entidade exploradora privada e as autarquias como associadas.
- Reutilização da água e de matérias primas, como forma de diminuir a poluição das águas.
- Necessidade de afinação dos tratamentos (qualidade de descargas em função do meio receptor e futuros usos).
- Necessidade de uma abordagem integrada (aglomerados e indústrias) e à respectiva escala territorial (conclusão válida para regiões como o Baixo Vouga).
- Proceder a estimativas de custos de tratamentos mais correctos.
TEMA D Os Municípios, a Água e as Actividades Económicas.
Custos e Benefícios. Novos Desafios e Opções de Desenvolvimento Local.
- Constatação de situação real de escassez de água (em qualidade) no Ave, para o abastecimento das actividades económicas e da população.
- Dependência marcante dos Recursos Hídricos do Desenvolvimento Económico e Social do Ave, mais do que noutras partes do país.
- Realce à importância da CGIBHA (Comissão de Gestão Integrada da Bacia Hidrográfica do Ave); exemplar como intervenção em área em conflito de usos.
- Centralidade da questão do poder (e de quem o detém) na resolução dos problemas de articulação do desenvolvimento e dos recursos hídricos.
- Além da CGIBHA, a Associação de Municípios funciona como um “lobby” social/pressionando a Administração Central (questões económicas, técnicas, etc.).
- Problemas de Planeamento (da intervenção do Prof. Costa Lobo).
A – Hipóteses de reconversão do Plano do Médio Ave:
- “Dispersão” da Universidade no Vale do Ave (polo em Guimarães a difundir-se para os centros industriais);
- Reutilização de instalações industriais abandonadas:
- Reformulação do sistema de transportes;
- Política de gestão de recursos hídricos (medidas)
- recarga de aquíferos
- armazenamento domiciliar de água
- reforço das águas de rega nas áreas para-urbanas;
- Acção progressiva de despoluição, com participação das populações;
- Revestimento agrícola e florestal (manutenção);
- Consideração das três zonas do Ave:
- zona de montanha
- Médio Ave
- litoral
- Associação das Câmaras, apesar das dificuldades (Dec-Lei 69/90 os PDM inter-municipais).
B – Em Termos de objectivos gerais de planeamento, necessidade de:
- Aprofundar o estudo, investigação e formação na área dos recursos hídricos (gestão municipal);
- Reforçar a acção municipal através da associação inter-municipal;
- Tornar o planeamento mais criativo, através da interdisciplinaridade;
- Instituir formas de programação e monitorização com informação ao público (por exemplo através de um organismo neutral); 5) Assumir a profissionalização dos técnicos envolvidos.
C – Níveis de territorialização das questões:
- municipal, intermunicipal indispensáveis;
- nível sub-municipal (serviços de manutenção e fiscalização).
D – Água e planeamento municipal
Pergunta-se se o PDM pode deixar de incluir:
- um balanço hídrico?
- proposta de despoluição?
- integração da gestão da água na bacia hidrográfica?
- concepção da rede de drenagem e descarregadores de superfície?
- consideração da recarga de aquíferos e medidas de economia de água?
- perspectivas regionais de transferência de água inter-regiões?
- Considerações de integração regional e (nas regiões de fronteira) considerações de planeamento trans-fronteiriço?
TEMA E – A Participação dos Municípios na Estrutura de Gestão dos Recursos Hídricos.
Que Atribuições e Competências?
- Não são conhecidas as intenções do Governo no que se refere à estrutura de gestão dos recursos hídricos e ao papel dos municípios nesta ges tão, nem tem sido promovida uma discussão ampla sobre esta matéria.
- O Dec-Lei 70/90, embora seja muito vago e impreciso, está feito em grande pendor centralizador, não conferindo praticamente responsabilidades de gestão aos municípios.
- Foram emitidas dúvidas quanto ao artigo do Dec.-Lei 70/90 no que respeita à responsabilização atribuída aos utilizadores pela construção de obras de fomento hidráulico.
- O Dec-Lei 70/90 não contempla a existência de um Conselho Nacional da Água mas só de Conselhos Regionais, o que se considera ser uma lacuna importante.
- É importante estudar a experiência estrangeira em matéria de estrutura de gestão dos recursos hídricos, sendo de considerar, em particular, a experiência espanhola e francesa.
- A complexidade dos problemas técnicos de gestão da água, e os enormes recursos financeiros exigidos pelo aproveitamento dos recursos hídricos aconselham a que, sem prejuízo da capacidade de decisão dos municípios, os sistemas de abastecimento d água e saneamento de águas residuais sejam entregues a entidades empresariais dotadas de elevada competência técnica e capacidade financeira.
- As bacias hidrográficas deviam ser um elemento fundamental a ter em conta na definição dos limites das regiões administrativas, dado o papel determinante da água para o desenvolvimento económico e social e o carácter unitário deste recurso no âmbito de cada bacia hidrográfica.
- É fundamental que os municípios procedam à inventariação permanentemente actualizada das suas necessidades em recursos hídricos, em quantidade e qualidade, de acordo com os seus planos de desenvolvimento.
- Os municípios devem ter o seu lugar ao nível da Administrações de Bacia, a par de entidades que administrem actividades sectoriais (floresta, agricultura, indústria, etc…), para proceder à concertação de acções que tenham impactos em diversos recursos naturais.
- A responsabilidade dos municípios deve ser essencialmente colocada ao nível das consequências, dos níveis de qualidade de vida, em termos globais; no entanto, os aspectos técnicos deverão ser entregues a entidades especializadas em quem deleguem essas competências de gestão.